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Atlântico Vermelho – Padrão dos Descobrimentos

A SALVAÇÃO DAS ALMAS?
A SALVAÇÃO DAS ALMAS? Impressão digital sobre tecido e costura 29,0 x 58,0 cm. 2017.

14 de outubro a 30 de dezembro de 2017
Lisboa/Portugal

Rosana Paulino (São Paulo, 1967) nasceu numa família afrodescendente e as primeiras memórias de que se lembra é o de ter de brincar com bonecas brancas e loiras porque não haviam bonecas negras. Ao recuar ao início da sua história pessoal entende como o problema da representação dos negros traduz-se na sua quase ausência nos mais variados aspetos da vida dos brasileiros, incluindo na história das artes visuais, em particular nas artes plásticas, e no que é a História do Brasil. Ela própria artista, investigadora em arte e professora tem uma informação abrangente e rigorosa desta ausência de representação e mais concretamente de autorrepresentação. Uma breve historiografia deste tema assinala, maioritariamente, a presença de negros como artistas que cumprem os cânones europeus, como os casos do escultor Aleijadinho (1730?-1814), de Artur Timóteo da Costa (1882-1922) e irmãos ou de Estevão da Silva (1844-1891). Estão também presentes como um tema exótico nos pintores holandeses Frans Post (1612-1680) e Albert Eckhout (1610-1666). No caso dos artistas consagrados do modernismo brasileiro, seguem mais a liturgia do modernismo como prática europeia artística proclamatória ao tomarem o negro e o índio como temas inseridos normalmente numa pintura exótica da flora e de paisagens tropicais de que há fartos exemplos em Tarsila do Amaral, Portinari, Emiliano Di Cavalcanti, Lasar Segall. E se, a partir da década de 30 do século XX, há casos de autorrepresentação dos negros nas artes brasileiras, só há pouco tempo foram
reconhecidos como tal. No momento da sua produção foram tidos como artistas de uma história de arte paralela, de uma narrativa negra, considerada secundária. São os casos de Heitor dos Prazeres, Yeda Maria, Rubem Valentim, Mestre Didi, Emanoel Araújo. E se bem que uma geração de artistas negros tenha começado a produzir intensamente a partir de 2000 – Sidney Amaral, Michelle Masthé, Renata Felinto, Paulo Nazareth, Rosana Paulino e outros – o circuito das artes visuais Rio de Janeiro-São Paulo era, até há poucos anos, quase exclusivamente branco.

Há, no trabalho de Rosana Paulino, uma dimensão política e ética que exige um reconhecimento desta história escondida e que proclama a sua visibilidade. Na obra The Honor Code. How Moral Revolutions Happen, de Kwame Anthony Appiah, há um parágrafo dedicado ao reconhecimento: “Nós, seres humanos, temos necessidade dos outros para

reagir de maneira apropriada em função do que somos e do que fazemos. Temos necessidade que outras pessoas nos reconheçam enquanto seres conscientes ao mesmo tempo que testemunham que nós os reconhecemos. Quando na rua trocamos um olhar
com alguém estamos em face de um reconhecimento que é mútuo, expressamos um ao outro uma necessidade humana fundamental e reagimos – espontaneamente e sem esforço – a esta necessidade que identifica um e o outro que se olham.”¹

“A obra de Rosana Paulino é uma permanente reclamação pelo reconhecimento dos negros na História, mas também pelo reconhecimento contemporâneo dos afrodescendentes. Reclama, de certa forma, e por extensão, o reconhecimento de todos os que de algum modo podem estar condenados a serem, num futuro não distante e em consequência da globalização financeira neoliberal, “os negros do futuro”, utilizando a expressão de Acchile Mbembe² . A materialização desta reclamação está presente na denúncia da violência sobre o negro na obra “Ama de leite” – um corpo de mulher sem cabeça, sem braços, sem pernas, e cujo nome decorre da sua funcionalidade: alimentar as crianças ao seu cuidado.

Para tanto e no domínio de várias técnicas – pintura, desenho, fotografia, tecelagem – a artista enfrenta os cânones da produção e difusão de conhecimento de origem colonial e desconstrói-os; muito em particular o conhecimento científico e as narrativas religiosas, basilares na justificação do comércio da escravatura e da colonização do espírito.

O conjunto das obras expostas no “Atlântico Vermelho” evoca, de imediato, as consequências da expansão europeia. A expansão que destruiu as sociedades ameríndias e impôs o tráfico negreiro entre a África e as Américas. Durante mais de três séculos, milhões de africanos foram capturados e depois vendidos como escravos, com o argumento jurídico, moral, religioso e econômico de que eram despossuídos de alma e de direitos e remetidos para a condição de coisas naturais. Esta atitude, protagonizada pela modernidade europeia, constitui uma dupla violência cujos efeitos ainda perduram: uma violência sobre a natureza, que se quis subjugada ao empreendimento colonial, e uma violência sobre as pessoas escravizadas que eram tidas apenas como parte dessa natureza. A obra de Rosana Paulino é um permanente resgatar das duas entidades subjugadas: na força da desocultação destas violências e no cuidado que é dado à visibilidade da história dos negros e da natureza.

Neste aspecto a obra “História Natural ?” é bastante elucidativa ao simular o que poderia ser um volume da Enciclopédia. Num livro de doze pranchas a autora faz um exercício
notável de gravura e colagem em que sob títulos e taxionomias comuns da botânica, da zoologia, da mineralogia e da ciência europeia novecentista, desepistemologia a ciência e o empreendimento colonial. “Atlântico Vermelho” é um título que evoca a obra de Paul Gilroy: O Atlântico Negro³. Contudo, estes trabalhos de Rosana Paulino extrema a tese do tráfico da escravatura, que teve o Atlântico como palco principal, para lhe dar uma materialidade presente que evite a amnésia que a utilização banalizada do termo escravatura já produziu.

A obra de Rosana Paulino confronta-se com a memória, que não se limita a uma atitude de recordação, mas que resulta de um processo de filtragem e produção contínua de uma narrativa condicionada pelos traumas, pela nostalgia ou pela negação. Confronta-se com a memória como uma reconstrução constante. Daí que o trabalho sobre a construção e uma tentativa de fixação epocal das memórias familiares tenha sido um ponto de partida na sua obra. Veja-se “Parede da memória” (1994-2015), uma obra de 1500 peças, que reproduz onze imagens do seu arquivo familiar (em acervo na Pinacoteca de São Paulo); ou “Bastidores” um conjunto de bastidores com a reprodução do rosto de mulheres da sua família, mas em que a boca está cerzida, silenciada, num gesto de interdição da palavra, do
grito, do som.

O conjunto de trabalhos agora expostos, quer pela sua temática quer pelos materiais utilizados – aquarela, desenho, tecidos, barro, fios – , quer pela sua liquidez – a ocupação no espaço é fluida e contaminadora – quer ainda pelas figuras esculpidas – mulheres atadas, amputadas, com anzóis cravados – , serve uma outra declaração da artista: a vulnerabilidade a que sempre estiveram sujeitos os negros e, duplamente, as mulheres negras. O traço é fino e delicado, as esculturas soberbas na sua manufatura, mas a expressão é de um tal sofrimento, de uma tal dor de quem está à mercê de outros que os dominam. 4

A obra de Rosana Paulino debruça-se também sobre outros efeitos que o colonialismo, a escravatura e a expropriação dos recursos naturais na América Central, do Sul e em África, que, aliás, aceleraram nas últimas décadas vieram provocar em particular o esquecermos o quanto a natureza pode ter a capacidade de provocar em nós o sublime natural. Disto se tratam muitas das páginas da obra “História Natural?” como da peça “Paraíso Tropical” (2017).

Na década de 80 do século passado um conjunto de filósofos maioritariamente americanos – Milton Mayeroff, Carol Gilliam, Annette Baier, Virginia Held, Eva Feder Kittay, Sara Ruddick, Joan Tronto – introduziram uma nova reflexão no domínio da ética, denominada “ética do cuidado”. A inovação desta filosofia que se desviava da ética como um conjunto de imperativos utilitários de validade universal, passou por considerar que tomar cuidado implicava ter em consideração não só a vida moral inserida nas inter-relações entre as pessoas e a sua diversidade, mas começava na vida íntima dos sujeitos, aplicava-se aos animais, ao meio-ambiente e até à política do serviço público. “Atlântico Vermelho” é esta ousadia artística de considerar o tomar cuidado como um princípio ativo de viver e de fazer arte, no presente, mas com igual intenção em relação ao passado, especificamente em relação à história dos negros subalternizados.

António Pinto Ribeiro

1 APPIAH, Kwame Anthony (2010), The Honor Code. How Moral Revolutions Happen. 1 Aqui utilizada a versão francesa: (2012), Le Code D’Honneur. Comment Adviennent les Revolutions Morales. Trad. Jean-François Sené. Paris: Gallimard, p. 15.

2 MBEMBE, Achille (2013), Critique de la Raison Nègre. Paris: La Découverte.

3 GILROY, Paul (1993), The Black Atlantic. Modernity and double Consciousness. Cambridge: Harvard University Press.

4 Apesar de não estar presente nesta exposição, esta peça é de uma enorme importância no conjunto da obra da artista


Galeria


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Atlântico Vermelho – English Version

Atlântico Vermelho – Versión Española


 

Atlântico Vermelho – Galeria Superfície (2016)

Atlântico Vermelho. Impressão sobre tecido, linóleo e costura. 66,5 x 140,0 cm. 2016.

16 de junho a 16 de julho de 2016

A Galeria Superfície tem o prazer de apresentar “Atlântico Vermelho”, exposição individual de Rosana Paulino. A mostra foi concebida a partir da extensa pesquisa desenvolvida pela artista, tanto no âmbito acadêmico quanto no campo das artes visuais, sobre questões sociais, étnicas e de gênero, especialmente acerca da posição do negro e da mulher negra na sociedade brasileira. Para sua exposição na galeria, a artista exibirá um conjunto de desenhos e obras sobre tecido que desafiam as noções tradicionais de história e hierarquia de gêneros artísticos. A artista se apropria de elementos do cotidiano e fazeres historicamente associados ao universo feminino, como a arte têxtil, e os subverte, imputando-lhes elementos de violência que rompem com a noção de docilidade e passividade a eles associados. Estes elementos desvelam a problemática da condição do negro na sociedade atual, reverberam marcas de um passado não resolvido, e se somam ao corpo de trabalho da artista que é, ao mesmo tempo, poético, autobiográfico e social.


Galeria

 

Assentamentos no IPN

Povo,

Próximo dia 26 abro a mostra ASSENTAMENTOS – ADÃO E EVA NO PARAÍSO BRASILEIRO,  no IPN. O local é de grande responsabilidade! Quem não conhece vale a pena dar uma passada nos links http://www.pretosnovos.com.br ou na página da expo, no face, https://www.facebook.com/events/294325400764776/?fref=ts.

Enquanto isto, vão abaixo algumas obras para vcs ficaram com vontade de curtir a exposição! Além das exibidas abaixo serão mostradas também três imagens, em grande formato, da expo ASSENTAMENTO, que ocorreu em Americana no ano passado.

Um grande abraço!


Obras da série ADÃO E EVA NO PARAÍSO BRASILEIRO.

Técnica mista sobre papel azul. 49,5 x 34,5 cm. 2014.


Galeria

PDF Educativo Assentamento

Olá a todos,

Finalmente estamos anexando o PDF Educativo da exposição ASSENTAMENTO. Peço desculpas pelo atraso mas isto pode ser compensado vendo o belíssimo trabalho desenvolvido pelo Celso Andrade para o PDF. O texto é meu e, embora não pretenda esgotar o assunto pois uma mostra como esta levanta muito mais perguntas do que oferece respostas , foi elaborado com muito carinho para atender aos interessados que acessam o site e me perguntam sobre o uso de minhas imagens em sala de aula.

Portanto, é só clicar no link PDF-Educativo e bom trabalho!

Grande abraço!


 

Olá a todos,

A abertura da mostra foi ótima! O carinho e a energia foram maravilhosos! Sinceramente, não tenho palavras para agradecer aos envolvidos, desde os voluntários do educativo – e quantos apareceram! Um obrigado especial ao Paulo César, diretor do MAC Americana, que praticamente mudou com a equipe, Ivânia, Dioniso e Vitória para a ETEC. A Sala ficou linda, como vocês podem ver. Além disso, o apoio generoso do Guilherme, diretor da ETEC sempre preocupado com a formação dos alunos, foi fundamental. E a fantástica Patrícia, um grande motor. Que privilégio ter uma professora como ela! A vocês meu muito, muito obrigado.

Mas vamos as imagens! Outras virão. E aguardem o PDF Educativo, que estará a disposição para ser baixado gratuitamente ainda esta semana!

Grata por acompanharem meu trabalho, pelo incentivo, pelas dicas, pelo amor….

Um grande beijo a todos!


Conversando…

Com os voluntários do Educativo. Olha quanta gente! Que liiinnnndooo!


Outras imagens: